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De partida

De partida

De partida

Éverton Ribeiro, Éder Lima, Luca Fonseca, Júnior Urso, Renê Júnior, Ricardo Goulart, Montillo, Conca, Diego Tardelli, Elkeson, Barcos, Marcelo Moreno, Anselmo Ramón, além do técnico Cuca. Poderia ser a escalação de um time que vai disputar o Campeonato Brasileiro de 2015, mas esses são apenas alguns dos nomes que vão jogar a próxima edição da China Super League. A falta de dinheiro dos clubes brasileiros aliada ao crescente investimento no futebol asiático gerou uma combinação perigosa e tirou alguns dos principais jogadores do futebol brasileiro. Dentre eles, dois dos destaques de Atlético e Cruzeiro, campeões dos torneios nacionais em 2014.

Diego Tardelli seguiu o caminho de Cuca. Vai defender o Shandong Luneng, onde vai receber em torno de um R$ 1 milhão por mês, livre de impostos. Já Ricardo Goulart, acertou transferência milionária para o Guangzhou Evergrande, atual campeão asiático. Só neste ano, oito jogadores brasileiros fizeram as malas para o futebol chinês, sem contar os estrangeiros Conca, Barcos e Marcelo Moreno. Além das cifras salariais, casas e carros com motoristas, intérpretes e passagens aéreas para familiares costumam estar no pacote das ofertas sedutoras.

Em meio ao risco de “se esconder” em uma competição ainda sem transmissão para outros países, onde os gols minguam no Youtube, vem a realização financeira. Por ela, Ricardo Goulart tomou a decisão de deixar o Brasil no auge da carreira e ainda aos 23 anos. “Futebol é muito rápido, e quando eles querem, eles podem. Foi uma negociação favorável tanto para o Cruzeiro quanto para mim. Tenho família por trás, que depende do meu esforço e trabalho”, revelou o Gordo, como é conhecido pelos amigos de infância. Goulart virou Rambo na sua apresentação ao Guangzhou. O sonho que parecia impossível de comprar uma Brasília nova para o pai, o ex-jogador e mecânico Vitor Gomes, agora está bem abaixo da realidade.

Convocado por Dunga no fim do ano passado, Goulart não teme perder espaço na seleção atuando no futebol chinês. “Não perco a visibilidade. O mundo se comunica nos dias de hoje. Vou fazer de tudo para chamar atenção na China e ser o primeiro jogador que atua lá a ser convocado”, revela.

O mesmo sonho é o de Diego Tardelli. Aos 29 anos, o ex-atleticano aceitou o desafio no exterior. Depois de passar por Betis (Espanha), PSV Eindhoven (Holanda), Anzhi Makhachkala (Rússia) e Al-Gharafa (Catar), é hora de desbravar o futebol asiático. Titular da seleção desde a chegada de Dunga, Tardelli garante que se preocupou com o assunto antes de acertar a transferência. “Tive contato com alguém que me deixou mais tranquilo ainda. Deixei uma boa imagem e acho que o Dunga é muito coerente nisso, com relação aos jogadores que atuam fora do país. Eles me deixaram muito tranquilo, então vamos esperar o que vai dar. Não é uma porta que se fecha”, garantiu ainda antes de assinar o contrato de quatro anos com o Shandong Luneng.

Mesmo com bons contratos ao longo dos últimos anos, o jogador já havia admitido publicamente a força da proposta chinesa. “É para mudar minha situação e a da minha família. Acredito que todos os jogadores queriam estar no meu lugar, neste momento. É uma proposta boa, irrecusável”, declarou.

Mas nem sempre as facilidades financeiras superam as dificuldades em um país de cultura totalmente diferente. O atacante Rafael Marques, por exemplo, voltou ao futebol brasileiro nesta temporada após passagem pelo Henan Jianye. Na chegada ao Palmeiras, revelou arrependimento. “Depois de chegar lá e ver como é a estrutura, um estilo de trabalho que não combina comigo, eu não pretendo voltar. Quem voltou da China sabe muito bem”, contou o jogador.

Quem ainda está por lá também não esconde as dificuldades. “A adaptação na China é dura. Compensa pelo lado em que você está ajudando a evoluir o futebol. Fora isso, a vida é muito difícil”, admite o técnico Cuca, que deixou o Atlético após o Mundial de Clubes em 2013. O meia Montillo, que atuou pelo Cruzeiro, tem ainda outros problemas. “Tenho uma dificuldade grande com o meu filho maior que não tem escola e com o mais novo que tem Síndrome de Down e precisa de cuidados especiais que lá não tem”, contou em entrevista ao canal ESPN.

E os investimentos do futebol chinês no Brasil não se resumem aos jogadores. No ano passado, Shandong Luneng de Cuca comprou um Centro de Treinamento no interior de São Paulo e em janeiro veio ao país para realizar amistosos e fazer pré-temporada. Na bagagem, além de jogos contra Palmeiras e Botafogo, levou o ex-atacante do Atlético.

Como disse Ricardo Goulart, “quando eles (chineses) querem, eles podem”. E do futebol brasileiro, eles parecem querer cada vez mais.

Negócio da China

A decisão de deixar o futebol brasileiro para jogar em centros menos famosos nem sempre é simples. E cada vez mais, jogadores contam com ajuda profissional para saber se as propostas são mesmo valiosas. Marcelo Claudino é consultor financeiro e foi o responsável por fazer estudos para Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro, que deixaram o Cruzeiro em janeiro. Em entrevista, ele conta à Vox Objetiva um pouco mais sobre o trabalho.

Como é feito o trabalho de consultoria para sugerir ou não a transferência de um jogador?

A primeira parte é feita pelo empresário, responsável pela negociação. Após a proposta se tornar concreta, vamos munir o atleta com todas as informações, como carga tributária, moeda local e imposto de renda sobre o salário que ele vai receber. Às vezes, o atleta acha que vai ganhar muito mais, mas pode ser surpreendido com a alíquota e acabar com a mesma coisa. Todos os aspectos relacionados com essa gestão dali por diante são tratados por nós. Cuidamos da ajuda na adaptação, do patrimônio e do investimento dos atletas para que eles continuem gerando riqueza e prosperem.

E quais as principais diferenças tributárias entre o Brasil e de mercados como a China?

Cada região tem a sua peculiaridade. No caso dos Emirados Árabes, que funcionam como “um paraíso fiscal europeu”, o imposto de renda tem alíquota zero. Mas quando esse dinheiro entra no Brasil, dependendo de como ele entra, é tributado de acordo com as leis. Na China, o percentual de imposto de renda chega a 45%, mas existem estratégias, dentro do que a lei permite, e a opção de administrar uma parte desse recurso fora do país.

Como funciona esse trabalho de consultoria financeira no Brasil?

Há dez anos, eu enxerguei essa oportunidade. A partir de 2008, nós começamos com esse trabalho, inicialmente no vôlei. O grande problema para entrar no futebol, primeiramente, é conquistar a confiança. O atleta pode entender que a presença do especialista é prejudicial, mas muitas vezes a interferência familiar ou de um empresário sem especialização pode colocá-lo em problemas. É um caminho sem volta. Os atletas estão mais conscientes e informados. Eles sabem da importância de proteger aquilo que estão ganhando com tanto suor.

Mesmo que muitos jogadores tenham ótimos salários, ouvimos muitos casos de dificuldade após o fim da carreira…

Existem vários casos, alguns públicos. Isso acontece por dois motivos principais: primeiro porque ele mantém o padrão de vida que não condiz com a renda que ele não vai ter mais; segundo é que ele não se preparou para outra atividade. Isto também faz parte da nossa consultoria: fazer com que o atleta se prepare para uma atividade quando parar. Dois em cada três atletas entram em depressão quando se aposentam. Por isso, esse movimento novo vem sendo feito com atletas aposentados voltando a jogar.

A China ainda deve tirar muitos jogadores do futebol brasileiro?

É um movimento difícil de inverter. A China é uma das maiores economias do mundo, com muito dinheiro investido e muitos empresários bilionários entrando no mercado do futebol. São cifras que não se comparam ao que um atleta pode ganhar no Brasil. Além disso, os times chineses veem a oportunidade de levar um atleta mais novo e tentar a revenda para o mercado europeu, obtendo lucro.

E essas transações podem mesmo mudar financeiramente a vida de um jogador?

Sem dúvida. São valores que, dentro do tempo de contrato, se forem recebidos e bem geridos nos investimentos corretos, representam a independência do atleta sem sombra de dúvida.

 

Fonte: Vox Objetiva

 

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